Viúvo havia pouco tempo, ele morava numa casinha na subida que leva à Igreja.

Com pouco mais de sessenta anos, ainda era um homem sacudido e forte, não tinha medo de nenhuma espécie de serviço, enfrentava qualquer empreitada.

Não era rico, nem poderia ser, vivendo naquela cidade miserável, de gente mesquinha e pequena.

Bem ao contrário, lutava com dificuldades, era obrigado a muitos malabarismos para conseguir se manter com a parca aposentadoria que recebia do governo. Ainda enquanto a mulher vivia havia um pouco mais de folga, pois ela fazia doces para vender, costurava um pouco e, com isso, ajudava bastante no orçamento doméstico.

Agora que enviuvara, as coisas se tornaram bem mais difíceis.

Como a maioria das pessoas naquela cidade, depois de cinco horas da tarde, ele gostava de ficar sentado em sua varanda, cumprimentando os passantes e esperando algum amigo mais chegado que viesse tomar um café e bater dois dedos de papo.

Naquela tarde, uma tarde bonita e colorida, ele se surpreendeu ao ver encostar diante de seu portão, um automóvel.

Era um carro novo, bonito, lustroso. Coisa rara no município.

Um senhor de seus trinta e oito anos de idade, bem vestido, elegante e de modos bem educados, desceu do veículo e dirigiu-se para o portão.

Ele conhecia muito bem aquele homem, não era nenhuma novidade sua chegada, mas o estranho era a expressão carregada de seu rosto, habitualmente alegre e jovial.

Esperou que ele chegasse até a varanda, levantou-se, apertou sua mão e, mais uma vez, se preocupou.

O aperto de mão, sempre caloroso, firme, estava frio, distante…

Tão frio e distante quanto o seu olhar, quanto a sua maneira de agir, como se fizesse cerimônia, como se estivesse até encabulado, julgando-se indesejável naquela casa.

O que seria o absurdo dos absurdos…

O recém-chegado aceitou um café e, depois de tomá-lo, acendeu um cigarro com a mão trêmula.

— Alguma coisa não vai bem — comentou o velho — O que está havendo?

O outro não respondeu de imediato. Soprando a fumaça do cigarro para o alto, depois de alguns segundos de angustiante e opressivo silêncio, falou:

— Estou preocupado… Muito preocupado, na realidade.

O velho ergueu as sobrancelhas e fitou-o, encorajando-o mudamente a continuar.

O visitante serviu-se de mais café e disse:

— Você me conhece desde pequeno. Acho até que me viu nascer, não é mesmo?

— Você sabe que sim! — exclamou o velho — Por que está falando assim, perguntado uma coisa que é do conhecimento de todos?

Mais uma vez, o outro se calou. Parecia pensar muito, escolhendo cuidadosamente as palavras que iria utilizar.

Com expressão dura e um tom magoado na voz, finalmente ele falou:

— Pois é… O que está me preocupando é justamente algo que todo mundo parece saber e somente eu é que não sei…

O velho olhou para as pontas de seus sapatões. Depois de quase um minuto assim, ele se levantou, foi até a sala de jantar e, de dentro de um armarinho de vidro, antigo como o tempo, apanhou uma palha de milho para fazer um cigarro. Do bolso da calça, tirou um pedaço de fumo de rolo e começou a cortá-lo, meticulosamente, amontoando o tabaco no cavo da mão em concha.
— Acho que sei o que você está querendo saber — falou — E acho que tem todo o direito de ouvir a verdade…

O outro ficou lívido.

— Então é verdade… — murmurou.

Teria dito mais coisas se sua voz não lhe morresse na garganta.

O velho acendeu o cigarro de palha, soprou a chama que se formara na ponta acesa, apertou-a com o fundo da caixa de fósforos e, olhando fixamente para seu interlocutor, falou:

— Sim. É verdade.

O visitante apertou os olhos e, com muito sacrifício e esforço, conseguiu controlar suas emoções e sentimentos.

Finalmente, depois de um suspiro, falou:

— Quero saber tudo. Com os menores detalhes. Como você mesmo disse, é um direito que me assiste.

O velho balançou a cabeça afirmativamente, puxou uma baforada do cigarro e convidou:

— Vamos para a cozinha. Esse tipo de conversa é melhor à beira do fogo.

Entraram, sentaram-se junto ao fogão de lenha onde as chamas crepitavam molemente e uma chaleira antiga, sobre a chapa, fervia.

— Na realidade — disse o velho — não há muito que contar. De mais a mais, aconteceu há tanto tempo…

Antes que o outro protestasse, acrescentou:

— Mas não se preocupe. Você vai saber de tudo, pelo menos de tudo quanto eu puder me lembrar.

— Quero saber tudo — insistiu o outro — Não apenas o que você disser que lembra!

Os dois ficaram calados, olhando-se.

Havia certa agressividade na expressão do visitante, mas o velho não ligou.

Depois de alguns momentos, ele sorriu e disse:

— Não sei o que é que isso pode influenciar em sua vida, agora. Na minha, faz muita diferença, pode ter certeza. O fato de você saber, ter certeza afinal, de que é meu filho…

Voltou a acender o cigarro e completou:

— Isso me faz bem. Muito bem, mesmo.

— Mas… As circunstâncias…? — balbuciou o outro — Preciso saber como isso aconteceu!

Um pouco mais controlado e até um tanto quanto submisso, ele explicou:

— Me é muito difícil admitir que minha mãe tenha sido uma leviana… Compreenda!

— Sua mãe jamais foi uma leviana! — protestou o velho — Muito pelo contrário! E, da mesma maneira, eu jamais fui um gavião!

Ele olhou para o velho e surpreendeu-se ao perceber que, pela primeira vez, estava encarando-o como seu verdadeiro pai. De repente, sentiu que havia muitos pontos de semelhança, pontos que parecia até um absurdo jamais ter descoberto antes.

— Como pode afirmar isso? — perguntou — Se quando eu nasci minha mãe já era casada fazia dez anos! E não tenho notícia de que houvesse enviuvado ou se separado nessa ocasião!

O velho balançou a cabeça afirmativamente e falou:

— Casada, era… Isso, ninguém pode negar. Era casada na Igreja, no Cartório e tudo o mais.

Ergueu os ombros e acrescentou:

— Só que o casamento jamais passou disso.

Antes que o filho pudesse dizer alguma coisa, o velho prosseguiu:

— O homem com quem sua mãe se casou, logo após o casamento, adoeceu. Por isso, não tiveram filhos. Daí, após nove anos de casados, sua mãe achou que era preciso uma criança. Ela não queria deixar a fazenda para os irmãos dela e, muito menos para os do marido. Assim, um dia, ela me pediu para lhe dar um filho.

Fixando o olhar no homem que estava à sua frente, completou:

— Eu era um empregado… Apenas obedeci. Apenas satisfiz esse desejo dela.

Houve um silêncio pesado, denso… Tão denso que se tinha a impressão de poder cortá-lo com uma faca.

O visitante acendeu um cigarro, a mão já mais firme, parecia muito mais senhor de si após ter conseguido a confirmação que viera buscar.

— Você acha que o pai… que o marido dela… sabia?

— Só podia saber, ora essa! — exclamou o velho — Eles jamais tiveram uma relação! Jamais dormiram juntos! Só nos primeiros dias após o casamento!

O filho voltou a ficar pensativo, olhando para a brasa do cigarro.

Por fim, ele disse:

— Acho que não vou poder chamá-lo de pai… Em primeiro lugar, não me acostumaria… Em segundo lugar, teria de dar muitas explicações complicadas lá no serviço, na repartição… Seria penoso e difícil.

Levantou-se, sorriu, estendeu a mão para o velho e murmurou:

— Em todo caso, quero que saiba que sempre gostei muito de você… Sempre o tive como um grande companheiro e no fundo, estou feliz com essa notícia. Muito obrigado!
Já fazia mais de duas horas que ele tinha ido embora (deixara sobre a mesa da cozinha um gordo envelope de dinheiro dizendo que era para ajudar nas despesas da casa), e o velho continuava ali, sentado à beira do fogão de lenha, fumando e pensando.

Quase quarenta anos! Quanto tempo!

Ele trabalhava na fazenda Brejo Alegre. Era o pau-para-toda-obra, o capataz, o retireiro, o zelador, o comprador… Enfim, fazia de tudo, de tudo cuidava.

Fazia já doze anos que ali estava, chegara nada menos que três anos antes do jovem casal que comprara aquelas terras.

Sempre estranhara a boa disposição da mulher e a preguiça e marasmo do marido. Era um sujeito letárgico, nada fazia a não ser ficar estendido na rede, a dar ordens para todos.
Todos?

Não! Ele não conseguia se fazer obedecer pela mulher…

Moça desempenada e bonita, ela era o oposto do homem que tinha por companheiro: decidida, punha as mãos na terra, trabalhava sem medo e sem medir o tamanho do serviço que tinha pela frente. Dava gosto, ver aquela mulher!

Durante alguns anos, o relacionamento entre o casal e ele foi o que se poderia imaginar de mais comum e normal. Era um relacionamento exatamente como deveria ser entre patrões e empregado. Ele labutava no serviço pesado, ela fazia o restante e o marido…

Bem… Ele apenas olhava.

Como diz um velho ditado regional, “casa com cumeeira fraca não dá boa morada”, um dia, o pagamento dos empregados da fazenda, não saiu.

A falta de chuva, o gado com o pasto ruim, o leite muito quebrado… Uma porção de coisas influíram para que o dinheiro não fosse suficiente nem mesmo para pagar as despesas da sede.
O marido, em vez de pelo menos tentar se explicar, nada mais fez que se deitar na rede, agora com um litro de cachaça na cabeça e… dormir.

Foi ela quem veio lhe dizer, toda sem jeito:

— Olhe… Este mês não tiramos para o sustento… Não vamos ter como pagar os camaradas.

Ele ficou com dó daqueles olhos cheios d’água e qualquer coisa nos modos da moça, tocou fundo em seu coração.

Assim, foi absolutamente natural que ele dissesse:

— Não faz mal, dona… Nós vamos trabalhar dobrado e, no mês que vem, a gente tira a diferença.

— Muito obrigada! — disse ela — Você não vai se arrepender por estar me ajudando agora!

Ela saiu, apressada, dando a desculpa de que tinha de ver um doce que estava no fogo, encomenda de um bar lá da cidade.

Ele ficou ali, vendo-a se afastar, achando esquisito que ela tivesse dito “me ajudando” e não “nos ajudando”, como seria o mais normal.

Teve a explicação para essa atitude da moça, quando esta passou diante do marido que roncava na rede, bêbado.

— Tranqueira! — disse ela, com raiva — Não presta para nada!

Ele não pode deixar de sorrir. Na verdade, sua opinião a respeito daquele homem, era exatamente a mesma…

Resolvido a ajudar aquela mulher a levantar a fazenda, ele passou a trabalhar — como prometera — em dobro. Não tinha mais hora de descanso, não parava um só segundo durante o dia e rara era a noite em que ele ia deitar antes de uma hora da madrugada.

Como seria de se esperar, passou a se introduzir mais na casa e nos negócios do casal. Na realidade, nos negócios dela, pois o marido, inchado de tanta cachaça, ele não valia mesmo para mais nada. Se antes já era um traste, a partir do momento em que assumira a sua bebedeira, passara a ser muito pior do que um pau podre. Dizia-se, com razão, que se uma vaca deitasse na porta de sua casa e precisasse de um balde d’água para não morrer, com certeza, ele perderia a vaca.

Aquele homem não se levantaria da rede e não largaria a garrafa de cachaça por nada deste mundo.

E ela, a esposa, a correr de um lado para o outro, matando-se de trabalhar, fazendo doces, fazendo bordados, ajudando na horta, no chiqueiro, no galinheiro, trabalhando, trabalhando, trabalhando…

Porém, esse esforço todo não ficou sem recompensa: no final de um ano, as dívidas estavam pagas, a fazenda prosperava. O gado, gordo e bem tratado, produzia sem parar. As lavouras, bem cuidadas, bem planejadas, eram uma promessa de fartura, de boas safras.

Finalmente, graças a Deus, a penúria terminara.

Ele já gozava de bastante liberdade na casa, entrava pela porta da cozinha e só se anunciava depois de estar lá dentro. Por várias vezes, solteiro que era, tomara suas refeições com a dona da casa e mais de uma noite ficara até tarde conversando com ela, fazendo contas, prestando contas e arquitetando planos para as próximas plantações e para novos investimentos que, à medida que a fazenda melhorava, tornavam-se mais e mais urgentes.

Uma manhã, ao chegar à porta da cozinha, percebeu que ela estivera chorando. Hesitou, quis sair, discreto que era, mas a afeição que já sentia por aquela mulher era suficiente para o impedir.

Perguntou, sem jeito, rodando o chapéu entre as mãos:

— O que foi, dona? Porque essa tristeza toda?

Ela enxugou os olhos no avental e, procurando disfarçar, atiçou o fogo indagando, a voz ainda entrecortada pelos soluços:

— O senhor quer café? Vou passar um agora…

Serviu-o numa caneca de louça que, ele sabia muito bem, só ela é que usava. Ao lhe dar o café, as lágrimas voltaram a rolar por suas faces coradas pelo calor do fogo e pela emoção que a sacudia.
Ele pegou a caneca e, com a outra mão, trêmulo e sem jeito, puxou-a para seu peito dizendo:

— Chore não… Tudo está tão bem agora… O que é que está acontecendo que a deixou tão triste?

Ela se esquivou, arredia e arisca. Seu rosto ficou mais corado e, atrapalhada, encabulada, acabou se queimando com o café quente.

Ela soltou um pequeno grito e sacudiu a mão escaldada.

— Queimou-se? Queimou-se? — perguntou ele, aflito — Deixe ver, vamos passar gordura para não empolar!

Dócil, ela se deixou medicar e ele se demorou passando gordura fria sobre sua mão, por entre seus dedos…

Ainda que muito sem jeito, ela não fez a menor menção de fugir àquele contato.

Voltou aos seus afazeres e ele saiu, ia juntar uma ponta de gado que comprara para a fazenda e que precisava curar.

Ela passou o dia todo pensando nesse incidente.

Não conseguia esquecer o carinho que ele mostrara, a atenção e a preocupação que lhe dispensara…

— Tão diferente daquele traste…

Assustou-se. Que novidade era aquela?! O que estava acontecendo com ela?!

Não conseguiu abafar uma vibração nova, um entusiasmo diferente e estranho que sentia, que a fazia sorrir e suspirar, que a deixava pisando em nuvens, que a fez salgar duas vezes o arroz, queimar o feijão e esquecer de fritar os ovos para o jantar.

À noite, ao entrar no quarto para dormir, viu o marido, já havia muito tempo embriagado e roncando como um porco.

Sentiu raiva daquele homem, ódio daquele bêbado e vagabundo, absolutamente inútil…

— Porco miserável! Não serve nem mesmo para me dar um filho!

Foi nesse momento, ao dizer essa frase, que a idéia lhe surgiu na cabeça. Um filho! Ela precisava de um filho!

Não dormiu aquela noite.

Ficou o tempo todo rolando na cama, sem encontrar posição. A noite inteira, seu pensamento vinha para o mesmo ponto:

— Um filho! Preciso de um filho, mas que não seja igual a esse cachaceiro!

Mal se encontraram nos dias que se seguiram.

Ela sabia que ele andava ocupado com o gado, com as roças dos meeiros, mas não deixou de ter a impressão de que ele estava fugindo da sede, de que estava evitando se encontrar com ela.
No final da semana, ela mandou chamá-lo, pretextando querer saber da produção de leite.

Ele estranhou.

— Gozado! Ela nunca me perguntou nada antes! Será que está desconfiando de mim?

Entrou na casa, desta vez, acabrunhado e tímido.

Ela, sorridente, logo lhe serviu uma caneca de café, dizendo:
— Eu queria lhe pedir desculpas pelo outro dia… Não queria lhe dar trabalho, mas estava nervosa, não vi direito o que estava fazendo e, por isso, me queimei…

Aliviado, ele sorriu e respondeu:

— Ora, dona… Não foi nada! Não foi trabalho nenhum!

Ela tocou seu braço e falou:

— Pois é… Gostei muito de ver que o senhor tem carinho por mim… Eu bem que preciso! O senhor vê o marido que Deus me deu!

Estranhando a conversa, ele corou encabulado e não conseguiu mover um músculo sequer.

— Veja só — continuou ela — Estamos casados há nove anos e não tive filhos até hoje! E não é por que eu não queira! É ele que não consegue fazer nada…
Baixando os olhos, acrescentou:

— Sabe… Eu também sinto falta…

Uma luz se fez em sua cabeça. Percebeu, afinal o que ela estava querendo, descobriu a razão por ter sido chamado àquela hora.

Por um breve instante, ele desejou sumir, quis que o chão se abrisse sob seus pés e o tragasse para as profundezas do inferno…

Mas, era impossível…

Ela o segurava pelo braço, puxava-o para muito perto de si e dizia:

— Quero um filho, quero um herdeiro que possa ficar com tudo isto, que possa fazer toda esta terra prosperar! E quero ter esse filho com o senhor!

Ele sentiu suas pernas amolecerem, sua alma parecia querer fugir, o corpo querendo ficar…

Não conseguiu falar nada, não enxergou mais nada…

Veio dar por si no quarto de hóspedes, ela ainda deitada ao seu lado, nua, linda, o sorriso bonito das mulheres que estão satisfeitas…

— Já nem me lembrava mais… — murmurou ela.

Daí por diante, ele a fez recordar o amor muitas e muitas vezes…

Até que um dia, ela lhe disse:

— Estou grávida…

Quando nasceu o menino, forte, gorducho, esperto, o marido não teceu nenhum comentário.

Apenas pegou mais uma garrafa de pinga e bebeu…

É claro que não chegou a ver o primeiro aniversário da criança, morreu um mês antes, num tombo da rede em que estava bebendo fazia já três dias seguidos.

Ele ajudou a carregar o caixão do defunto e, no dia seguinte, dando uma desculpa qualquer, foi embora da fazenda.

Não suportaria ver crescer o menino sem poder dizer que era seu pai e, de toda forma, a fazenda já ia bem, já não mais precisava dele.

Agora, depois de tantos anos passados, também estava sozinho…

Olhou para a noite, pensou:

— Pois é… Agora, estamos sós… Ela e eu… Só que somos dois velhos. Nada mais que dois velhos.

Levantou-se e foi para o quarto, o passo firme, o corpo ereto.

Despindo-se para dormir, murmurou:

— Sim… Agora estamos velhos… Não adianta querer outra vez…

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