Apoio Editorial: JornalismoColaborativo.com | Reportagem Original: Instituto Terra e um modelo global de futuro
Em Aimorés, no leste de Minas Gerais, o que se vê hoje pede olhar atento e leitura sem pressa. A floresta que voltou a crescer ali tem beleza imediata, mas sua força mais profunda está em outro plano. Ela devolve matéria a uma ideia que o país muitas vezes prefere manter no campo da abstração. A regeneração encontrou corpo em solo, água, duração e enraizamento. Onde antes havia uma fazenda exaurida, consolidou-se, ao longo de quase três décadas, uma experiência que reúne restauração ecossistêmica, recuperação hídrica, qualificação técnica, educação ambiental e reorganização do uso da terra de forma integrada.
A ampliação recente da área protegida ajuda a medir esse percurso. A antiga RPPN Fazenda Bulcão, com 709,87 hectares, foi expandida com a incorporação de novas propriedades até alcançar 2.346,96 hectares.



Fotos: ® Sebastião Salgado
Os números impressionam, mas a escala do que ocorreu ali aparece com mais nitidez quando se observa a recomposição do espaço. O Instituto Terra, fundado em 1998 por Lélia Wanick Salgado e Sebastião Salgado, nasceu da decisão de restaurar uma área já devastada, em uma região de relevo íngreme, solos empobrecidos, cursos d’água assoreados e longos períodos de seca. Desde então, a iniciativa alcançou mais de 7,4 milhões de mudas nativas gestadas, plantou mais de 3,3 milhões de árvores e registrou o retorno de 235 espécies animais, entre aves, mamíferos, répteis e anfíbios. O reaparecimento do sagui-da-serra-escuro, espécie criticamente ameaçada, condensa a espessura do processo: quando um animal assim regressa por conta própria, a mata deixa de ser apenas imagem refeita e volta a abrigar relações vivas.
Quando a regeneração deixa de ser promessa
Esse acúmulo ajuda a entender por que o Instituto entrou em nova fase. O viveiro, que vinha operando com capacidade de até 500 mil mudas por ano, começou a ser ampliado para atingir até 2 milhões de mudas anuais, com apoio da Zurich Insurance Group. Ao mesmo tempo, a coleta de sementes em mais de 300 espécies, em raio de até 200 quilômetros, revela um trabalho que vai além do plantio: envolve variabilidade genética, conhecimento técnico e disciplina de longa duração. Em Aimorés, a regeneração não aparece como gesto simbólico. Funciona como operação contínua, apoiada por infraestrutura, critério e aprendizado acumulado.

Foto: ® Sebastião Salgado
É quando atravessa a cerca da área restaurada e alcança a vida rural que essa experiência expõe outra camada de sua força. Na bacia do Rio Doce, que percorre 853 quilômetros, alcança 230 municípios e abriga cerca de 3,5 milhões de habitantes, o Instituto beneficiou 1.484 famílias, recuperou 2.426 nascentes, implantou 516 biodigestores e realizou 704 benfeitorias em água e solo. O dado não é apenas técnico. Em uma região marcada por estiagem severa, restaurar a base hídrica significa recompor infiltração, estabilidade do solo, segurança produtiva e condições materiais de permanência no campo.
Essa frente amadureceu no Programa Olhos D’Água e, mais recentemente, no Terra Doce, apresentado como uma resposta sistêmica para a bacia do Rio Doce. Ao Jornalismo Colaborativo, Juliano Ribeiro Salgado, presidente do Instituto Terra, afirmou que o passo mais decisivo neste momento é ampliar soluções que integrem restauração, desenvolvimento rural e justiça territorial. Em sua leitura, a crise da região exige respostas enraizadas no território e articuladas com as comunidades que vivem nele. O programa reúne recuperação hídrica, sistemas produtivos sustentáveis, assistência técnica, abertura de mercados, educação ambiental e fortalecimento cultural, com parceiros como KfW, WWF Brasil, Fundação Dom Cabral, CIAAT e Plural Cooperativa.
As metas projetadas até 2027 ajudam a medir a ambição desse horizonte: 4.200 nascentes em recuperação, mais de 2.000 hectares de APPs protegidas, 2.000 biodigestores e 3.000 barraginhas, além da expansão de sistemas agroflorestais, pomares agroecológicos e sistemas silvipastoris. A vegetação, nesse contexto, deixa de ser apenas paisagem recuperada e passa a compor um novo modelo de desenvolvimento para a região, em que conservação, renda e resiliência climática deixam de atuar separadamente.
O território também se refaz pela educação
A educação ocupa outra frente decisiva dessa arquitetura. O Instituto já impactou mais de 92 mil pessoas em ações de educação ambiental, recebeu cerca de 151 mil visitantes, formou 237 técnicos no NERE e alcançou 1.310 crianças no Terrinhas. Para Juliano Salgado, restaurar paisagens é fundamental, mas formar pessoas capazes de cuidar desses territórios ao longo do tempo é ainda mais decisivo. Essa lógica ajuda a entender por que programas como o NERE, o Terra Jovens e o Terrinhas aparecem menos como iniciativas paralelas e mais como parte do núcleo do projeto.
No caso do NERE, isso se traduz em uma formação pós-técnica de cerca de 2.000 horas, voltada a jovens que atuarão diretamente no campo ambiental. No Terrinhas, a outra ponta do processo se desenha na infância, inclusive com conteúdos produzidos pelos próprios participantes para plataformas digitais. Entre um ponto e outro, o Instituto sustenta uma ideia simples e difícil ao mesmo tempo: sem transmissão de saber, nenhuma regeneração se torna duradoura. Em áreas marcadas por décadas de exaustão, a erosão atinge também a imaginação do futuro. Formar gente do próprio território é uma forma de reconstruir esse elo.
Um aprendizado local com peso global
A relevância dessa experiência cresce diante do cenário climático. O relatório institucional situa o Instituto em um contexto de temperatura global 1,63°C acima da média pré-industrial, além de seca extrema no Vale do Rio Doce, enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul e colapso hídrico na Amazônia. Na Mata Atlântica, onde restam apenas 24% de remanescentes e 12,4% de florestas maduras, restaurar um território em condições tão duras acumulou valor que ultrapassa a geografia local. Aimorés passou a oferecer um aprendizado técnico, social e institucional que interessa ao país.
Esse amadurecimento também aparece na governança. As demonstrações financeiras contam com parecer limpo da Grant Thornton, as doações voluntárias cresceram 16% em relação ao ano anterior, as contribuições internacionais de pessoas jurídicas superaram R$ 4 milhões e as nacionais de pessoas físicas chegaram a R$ 1,5 milhão. O Instituto projeta seu futuro com pesquisa aplicada, cooperação institucional, expansão do plantio em larga escala, redes de apoiadores e parcerias com ensino técnico e superior. Em outras palavras, a floresta que cresce ali cresce apoiada por uma base de gestão, transparência e planejamento.
Talvez seja esse o traço mais raro do Instituto Terra. Ele devolve nitidez à palavra futuro. Em Aimorés, futuro deixou de soar como abstração promissora. Passou a ter forma de muda, nascente, viveiro, sala de aula, trilha, escuta técnica, atividade rural consciente e vegetação capaz de acolher de novo a vida. Em um país habituado à erosão, ver o chão reaprender a ser floresta devolve também outra coisa: a possibilidade concreta de permanência.
Leia a Reportagem Especial completa no JornalismoColaborativo.com: Instituto Terra e um modelo global de futuro.
Fotos: Sebastião Salgado, Leonardo Merçon, Lucas Barcelos, Jovander Pito, Thiago Amorim, Cássio Vasconcellos e acervo fornecido pelo Instituto Terra.










