Autor de A Garota de Seul
Entrevistas

Cacá Fernandes retoma a ficção em romance sobre fama, imagem e k-pop

Por Vale Jornal 20 de julho de 2026

Em entrevista ao CultPicks, autor de A Garota de Seul fala sobre a criação independente do livro, a influência do cinema e os desafios de divulgar a própria obra.

Durante quase três décadas, Cacá Fernandes trabalhou para construir a imagem de marcas, produtos e empresas. Ao retornar à literatura, encontrou um desafio diferente: transformar a própria criação em algo visível, capaz de atravessar os algoritmos e chegar aos leitores.

O processo de escrita, edição e lançamento de A Garota de Seul foi abordado pelo autor em uma entrevista publicada pelo CultPicks. Na conversa, Fernandes fala sobre a origem do romance, seu interesse pelo crescimento internacional da cultura sul-coreana e a decisão de assumir pessoalmente praticamente todas as etapas da produção editorial.

Publicado pela K2 Editora, o livro acompanha a aproximação entre um publicitário brasileiro e uma estrela global do k-pop. A história atravessa São Paulo, Nova York e Seul enquanto examina a distância entre a imagem pública de uma celebridade e a pessoa que existe por trás dela.

Da publicidade para a ficção

A ideia começou a surgir em 2018, quando Fernandes percebeu que artistas coreanos ocupavam um espaço crescente na música, no cinema, na televisão, na moda e na publicidade. Seu olhar profissional identificou no k-pop um fenômeno que ultrapassava o campo musical e se organizava como uma poderosa arquitetura de imagem, comportamento e consumo.

O projeto ganhou corpo durante o isolamento provocado pela pandemia. Inicialmente concebida como um possível roteiro cinematográfico, a história exigiu uma extensão maior para comportar as relações, os conflitos e as reflexões que o autor pretendia desenvolver. O roteiro, então, transformou-se em romance.

A experiência acumulada no marketing aparece no universo do protagonista, embora Fernandes ressalte que o personagem ingressa no entretenimento coreano como um observador leigo. Essa condição permite que o leitor descubra gradualmente a lógica das fanbases, das idols e da indústria cultural apresentada no livro.

Sue, a artista em torno da qual a trama se movimenta, foi construída como uma personagem situada entre a identidade pessoal e a persona criada para o público. Ao longo da escrita, o autor procurou evitar que essa ambiguidade se tornasse uma explicação excessiva ou uma crítica direta, preservando a dimensão enigmática da personagem.

Um livro atravessado pelo cinema e pela música

A estrutura de A Garota de Seul está dividida em seis partes e 43 capítulos. Cada seção é introduzida por uma referência musical, enquanto os títulos dos capítulos dialogam com filmes escolhidos pelo autor.

Entre os exemplos citados na entrevista estão Perfect Blue, animação japonesa associada aos conflitos entre identidade, fama e percepção, e Before Sunset, filme de Richard Linklater cuja atmosfera afetiva antecipa aspectos da relação entre os protagonistas.

A música funciona como elemento narrativo e como indicação emocional. As referências ajudam a estabelecer o ambiente dos personagens e oferecem pistas sobre o momento vivido por eles, criando uma camada adicional para leitores familiarizados com cinema e cultura pop.

Controle sobre todas as etapas

Fernandes escreveu, reescreveu e reduziu o manuscrito original, que chegou a ter cerca de cem páginas a mais. A preocupação central era tornar a leitura mais direta, preservando o ritmo e a experiência do público.

Além da escrita, ele assumiu a revisão, a edição, a diagramação e a produção da capa. Depois de anos afastado da publicação literária, o trabalho também representou uma avaliação pessoal de sua capacidade de conduzir um produto cultural do início ao fim.

“O que está ali foi feito 100% por mim”, afirmou o autor ao explicar sua escolha por manter controle integral sobre a obra.

A autonomia trouxe riscos, inclusive a perda da distância crítica oferecida por um editor externo, mas permitiu que o resultado final permanecesse próximo de sua concepção original. Para alguém que já havia trabalhado como editor-chefe de revistas e livros, retornar aos programas de diagramação e criação gráfica tornou-se uma das partes mais satisfatórias do processo.

O desafio de divulgar a própria obra

A etapa posterior ao lançamento revelou uma dificuldade menos ligada à literatura e mais relacionada à exposição pessoal. Acostumado a trabalhar nos bastidores da comunicação, Fernandes afirma que precisou enfrentar a necessidade de falar publicamente sobre o próprio livro.

Sem essa presença, avalia o autor, uma obra independente corre o risco de permanecer limitada pela distribuição algorítmica das redes sociais e pela velocidade do ambiente digital.

A entrevista também indica que A Garota de Seul poderá se tornar o primeiro volume de uma trilogia. Uma possível continuação deslocaria a narrativa para Tóquio e substituiria o universo do k-pop pelo dos animes. Um terceiro romance encerraria o percurso novamente em São Paulo.

A íntegra da conversa, com detalhes sobre os personagens, as referências cinematográficas e o processo de criação, está disponível na entrevista exclusiva publicada pelo CultPicks.

A Garota de Seul, de Cacá Fernandes, foi publicado em 2026 pela K2 Editora.