SJC Seu Josue Parque
Cidades

O joseense que fez dos livros uma herança para outras gerações

Por Editor 3 de setembro de 2026

Nascido em 1944, Josué dos Santos atravessou oito décadas de transformação em São José dos Campos entre o trabalho na indústria, a vida comunitária e uma devoção incomum ao conhecimento. Sua trajetória ajuda a lembrar que a cultura de uma cidade também se constrói dentro das casas.

Há pessoas cuja relação com a cultura nunca passa por palcos, academias ou grandes instituições. Ela acontece à mesa, numa estante, numa conversa demorada, no jornal entregue a uma criança, no livro indicado a um filho.

Josué dos Santos pertenceu a esse território.

Nascido em São José dos Campos em 3 de setembro de 1944, viveu toda a sua trajetória no município. Foi filho de Joana Maria de Jesus, empresária do ramo de lavanderia, e de Valêncio Manoel dos Santos, lavrador. Cresceu primeiro na região de Santana, próxima à Casa do Jovem, quando aquela parte da cidade ainda preservava características rurais. Mais tarde, estabeleceu-se no Jardim Satélite, na Zona Sul.

Entre uma paisagem e outra, atravessou décadas em que São José mudava de escala, de ritmo e de perfil econômico.

Sua própria vida acompanhou parte dessa transformação.

Entre a cidade rural e a cidade industrial

Josué construiu a carreira profissional na General Motors, onde trabalhou como industriário até a aposentadoria.

A família o recorda como um homem inteligente, responsável, competente e assíduo. São palavras associadas ao trabalho, mas que também ajudam a compreender a maneira como conduziu outros aspectos da vida.

Disciplina, constância e curiosidade faziam parte do mesmo conjunto.

A trajetória de Josué reúne dois mundos que marcaram profundamente a formação de São José dos Campos ao longo do século 20. De um lado, a memória de uma cidade que ainda guardava áreas de feição rural. De outro, a expansão industrial que redefiniu a vida econômica e social do município.

Ele passou por ambos sem perder aquilo que talvez fosse sua característica mais singular: a disposição permanente para aprender.

A cultura que cabia dentro de casa

Na família, Josué ganhou um apelido carinhoso.

Era a “enciclopédia ambulante”.

Em algumas ocasiões, virou simplesmente “Enciclopédia Barsa”.

A brincadeira revelava uma admiração real. Seu Josué lia muito, mantinha coleções de livros, acumulava informações e possuía uma memória que impressionava quem convivia com ele. Durante anos, foi assinante do Círculo do Livro e da revista Seleções.

Mas a relação com a leitura ganhava importância sobretudo quando passava para outra geração.

Filhos e netos eram estimulados a ler. A Coleção Vaga-Lume, que ajudou a formar leitores em todo o país, fazia parte desse universo doméstico. A Folhinha de S.Paulo também chegava às crianças como uma porta de entrada para notícias, histórias e curiosidade.

O detalhe é importante porque revela uma dimensão da cultura que costuma escapar das estatísticas.

Uma cidade pode possuir bibliotecas, escolas, universidades e centros culturais. Ainda assim, parte decisiva da formação de um leitor acontece quando alguém dentro de casa demonstra, pelo próprio exemplo, que conhecer o mundo vale o esforço.

Josué fazia isso.

Conhecimento como responsabilidade

Seu interesse pelo estudo ultrapassava o gosto pessoal pelos livros.

Ele acreditava que a educação tinha força para modificar o percurso de uma pessoa e, ao longo da vida, ajudou familiares e integrantes da comunidade em processos de formação acadêmica.

O apoio podia assumir formas diferentes. Incentivo, orientação, contribuição material, presença.

Para Josué, aprender carregava uma dimensão moral. Conhecimento deveria ajudar alguém a amadurecer, ampliar horizontes e assumir melhor as próprias responsabilidades.

Essa ideia atravessou sua casa.

Com Maria Helena dos Santos, construiu uma família de nove filhos, 16 netos e quatro bisnetos. Entre tantas gerações, o hábito de estudar tornou-se parte de uma herança que dificilmente cabe em documentos ou fotografias.

Ele deixou referências.

E referências costumam sobreviver de maneira silenciosa, incorporadas às escolhas de quem veio depois.

Fé, comunidade e senso de justiça

A espiritualidade também ocupou lugar central em sua trajetória.

Josué participou da Igreja Cristã Evangélica Central e, posteriormente, da Igreja Presbiteriana do Jardim Augusta, onde integrou o presbitério e colaborou com a comunidade religiosa.

Seu versículo bíblico preferido era Josué 1:9, passagem associada à coragem, à perseverança e à confiança na presença de Deus diante das dificuldades.

A proximidade com o texto bíblico possuía uma correspondência pessoal.

A família descreve Josué como alguém íntegro, generoso e dotado de forte senso de justiça. Sua fé aparecia na maneira como se relacionava com as pessoas, na disposição em ajudar e na atenção dada à formação daqueles que estavam ao redor.

Essa combinação de religiosidade, estudo e responsabilidade comunitária formava uma espécie de eixo interno.

Ele acreditava em princípios e procurava colocá-los em prática.

Uma forma discreta de participar da história

Quando se fala em memória de uma cidade, quase sempre aparecem os grandes nomes, as autoridades, os empresários, os artistas, os edifícios e os acontecimentos públicos.

Existe, porém, uma camada mais profunda dessa história.

Ela é formada por pessoas que ajudam a construir uma cultura cotidiana.

Pais que estimulam os filhos a estudar. Avós que colocam livros nas mãos dos netos. Trabalhadores que atravessam décadas de uma empresa sem abandonar a curiosidade intelectual. Pessoas que usam aquilo que sabem para abrir possibilidades a outras.

Josué dos Santos pertence a essa história.

Sua trajetória possui valor justamente porque revela como o conhecimento pode existir longe de qualquer solenidade.

Ele estava nas estantes da casa, nas conversas, nas revistas acumuladas, nos livros emprestados, no incentivo para continuar um curso, na insistência para que uma criança descobrisse prazer em ler.

A cultura, nesse sentido, deixa de ser uma ideia abstrata.

Ela ganha endereço.

Uma memória ligada ao Vale

Josué se despediu em 8 de julho de 2026.

A família preserva uma vida marcada pelo trabalho, pela fé, pela honestidade, pela generosidade e pelo amor ao conhecimento. Há também a proposta de que seu nome possa futuramente identificar uma via pública municipal, como reconhecimento de sua ligação permanente com São José dos Campos e de sua contribuição à comunidade.

Independentemente de uma homenagem oficial, existe uma memória que já está em circulação.

Ela aparece nas pessoas que estudaram porque receberam incentivo.

Nos filhos que cresceram cercados por livros.

Nos netos que aprenderam a associar leitura a curiosidade.

Nos bisnetos que receberão histórias de um homem conhecido dentro da própria família como uma enciclopédia.

Josué dos Santos representa uma espécie de cidadão fundamental para qualquer cidade que pretenda valorizar sua história.

Aquele que trabalha, participa, aprende e transmite.

Ao longo de oito décadas, fez da curiosidade um hábito de casa e do aprendizado uma herança capaz de atravessar gerações. Talvez seja aí que sua presença permaneça com maior nitidez: nas pessoas que continuaram querendo saber porque um dia aprenderam com ele a importância de perguntar, ler e seguir aprendendo.


Fonte: Jornalismo Colaborativo / ValeSJC