Pisca-Pisca

escritor

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Bem no início da década de 60, nós estudantes que frequentávamos o bairro de Santa Cecília, o conhecemos e com ele passamos várias noitadas.

Era um homem branco, alto, simpático, com um cavanhaque “ao natural”, de cabelos bem pretos e lisos. Se estivesse metido em roupas boas e caras, poderia facilmente passar por um aristocrata mas, nos farrapos que usava…

Jovem ainda, mostrava nitidamente os sinais de alcoolismo crônico: edema anarsáquico discreto, andar vacilante, tremores… Não teria mais salvação, disso todos sabiam, ele inclusive.

Chegava-se às mesas de calçada do restaurante Chic-Chá, na Avenida Angélica, e perturbava os fregueses pedindo uma esmola para comprar pão. Quando conseguia comover algum deles, com a maior caradura, caminhava para o balcão do próprio Chic-Chá e comandava, altivo, ao garçom:

— Me dá uma pinga aí!

E, com estardalhaço, punha o dinheiro sobre o mármore, sorrindo para quem lhe dera a esmola. Apanhava o copo e, solenemente, brindava o seu benfeitor:

— À sua saúde! — gritava.

Procópio, Mário e eu éramos fregueses assíduos desse restaurante, inclusive considerados fregueses “quentes”, já que nossa consumação não se limitava aos chopinhos com batatas fritas mas frequentemente era de uísque com filezinho ao palito… Estudávamos até tarde da noite e, para espairecer, íamos tomar um drinque lá, esfriar a cabeça. Íamos ajudar o Mário a gastar a gorda mesada que o pai lhe mandava de Brasília.

As vezes tínhamos a sorte de encontrar o Pisca-Pisca por lá e, maldade de adolescente, nós o chamávamos para judiar do dono do bar, também nosso amigo, e para aborrecer os outros fregueses:

— Ei! Pisca! Venha tomar uma cana com a gente!

Seu apelido, Pisca-Pisca, vinha-lhe de um cacoete que o fazia abrir e fechar os olhos rapidamente, apertando muito as pálpebras, sempre que começava a ficar nervoso. E, diga-se de passagem, ele ficava nervoso bem à-toa!

Nunca conseguimos descobrir quem era ou o que tinha sido o nosso amigo.

Percebíamos que sua cultura não era nada má, conhecedor que era de vários títulos de livros, diversos autores e outras coisas assim. Não se deixava enrolar em uma conversa e parecia ter viajado muito: descrevia cidades de diferentes estados com detalhes só possíveis para quem já tivesse estado por lá. Gostava de política e, tinha bom conhecimento do assunto. Obviamente, era oposicionista mas, por incrível que possa parecer, nem ao menos era socialista. Paradoxalmente era lacerdista ferrenho.

— Mas Pisca! — falávamos para o chatear — Se o Lacerda aparecer por aqui, você está frito! Não ouviu dizer que ele joga todos os mendigos no rio?

Nosso amigo se inflamava:

— Não sou mendigo! — dizia, piscando, apertando os olhos e se agitando — Estou vivendo uma situação difícil, isso é verdade… Mas não sou mendigo, não senhor!

A corda pegava.

Começávamos a instigar os brios do homem, e a caçoar dele:

— É verdade, doutor! O senhor não é um mendigo não!

A juventude é sádica e não dá tréguas em semelhantes ocasiões. Agíamos assim, apenas para ver o pobre bêbado piscar, piscar, apertar os olhos, esfregá-los com as costas da mão suja e beber, beber sem parar. Não nos importávamos com a conta que teríamos de pagar, achávamos que essa maldosa diversão valia qualquer despesa. Nunca nos ocorreu que o Pisca-Pisca, talvez piscasse para não chorar…

Depois de muito torturar o pobre homem, íamos embora, cada um para a sua casa, para o quentinho de seu quarto enquanto o Pisca-Pisca lá ficava. Ia dormir, como sempre, nas escadarias da Igreja Coração de Maria. Não nos incomodávamos, aliás, nem sequer pensávamos nisso. Terminada a noite, pagávamos a conta, despedíamo-nos uns dos outros e saíamos.

Pisca-Pisca ficava para trás: era um objeto que fazia parte do nosso folclore noturno, nem mesmo lembrávamos que ele era humano, que sentia frio, fome e carência afetiva como qualquer um de nós.

Às vezes se passava uma semana inteira sem que o encontrássemos.

Então, uma noite qualquer, o víamos surgir, o andar grotesco, cambaleante. Ele nos via e estugava o passo, parecendo ainda mais simiesco. Cumprimentava um por um, chamando-nos pelo nome, sentava-se com a maior sem-cerimônia, chamava o garçom e pedia:

— Traz aí uma Brahma! E um conhaque que é para quebrar o gelo!

Uma noite, ele chegou ao bar antes de nós.

E, não se sabe como nem por quê, criou um caso com outro mendigo que passava. Quando chegamos, uma roda de curiosos (inclusive a polícia) se acotovelava para ver a briga dos dois.

Os palavrões eram homéricos, cabeludíssimos, seus movimentos, seus golpes, seus tapas eram idênticos aos das brigas de palhaços no picadeiro de um circo.

A cena era tão cômica que chegava a ser ridícula.

Pela primeira vez tivemos realmente pena do nosso amigo.

O ridículo espetáculo nos fez sentir vergonha e querer acabar logo com aquilo. Parecia (reconhecemos isso depois de ter acabado tudo) que era um de nós que ali estava a dar vexame, a fazer e a passar vergonha.

Abrindo caminho por entre os curiosos, separamos a briga, não deixamos a polícia intervir e consolamos nossos bêbados gladiadores com o tipo de consolo de que eles precisavam: duas belas doses de conhaque para cada um.

Em poucos minutos a briga se transformou em amizade profunda, aquela amizade que une os bêbados e os fazem contar as mazelas da vida um para o outro e se tornarem confidentes.

Enquanto sentávamos para o uísque de fim de noite, nós os vimos descendo pela calçada da avenida Angélica, dizendo-se mutuamente:

— Você sabe o que já passei nessa vida! Me desculpe por hoje!

Depois dessa noite encontramos o Pisca-Pisca por várias vezes e notamos que piorava dia após dia. Sua saúde definhava e sua mente entorpecia.

Mas isso, se nos chamava a atenção, não chegava a nos perturbar, jamais foi um motivo de preocupação.

Nem mesmo notamos quando desapareceu.

Vieram os vestibulares com aqueles meses de estudos intensivos, com as grandes tensões dos exames, as angústias e ansiedades bem típicas dessa época de nossas vidas.

Entramos na Faculdade e, calouros orgulhosos de nossas cabeças raspadas, fomos para a primeira aula, a aula que desvirgina o acadêmico de medicina: Aulas Magna de Anatomia Descritiva.

Sobre a mesa, um cadáver coberto.

Quando o professor descobriu o corpo, nós três nos olhamos e não conseguimos reprimir as lágrimas.

Alguns colegas nos viram chorar e riram, divertidos.

Mas nós, só nós, sabíamos o por quê daquela emoção.

O cadáver sobre a fria mesa de mármore, nu, duro, já acinzentado pelo formol, aquilo que outrora fora um homem e que agora era um objeto de estudo, apenas um corpo a ser retalhado para os estudantes aprenderem alguma coisa, tivera vida um dia, e nessa vida, havia nos chamado pelo nome, bebido conosco, rido e chorado conosco.

Sim, era o cadáver do nosso amigo, o Pisca-Pisca.

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