— Desculpe… Você não é o José, casado com a…

Ela franziu as sobrancelhas, apertou um pouco os olhos e sorriu, sem jeito, depois de um inútil esforço para se lembrar daquele nome.

Fui em seu auxílio:

— Sim… Mas não se preocupe. Já não estou mais casado com ela há muito tempo.

— Você não está lembrando de mim…

O tom de voz era queixoso, sua fisionomia denotava tristeza e uma profunda decepção. Afinal, não era nada elegante eu não a reconhecer.

Mas, ela estava enganada.

Era mais do que evidente que eu me lembrava dela, como poderia me esquecer?

Só que…

Os anos tinham passado, lentos ou rápidos, isso não importa, o fato é que eles tinham passado inexoráveis e cruéis para nós dois.

Ela estava bem diferente.

Seus olhos, é verdade, ainda conservavam aquele mesmo brilho de antes, seu sorriso ainda mantinha aquele ar de desafio, seus lábios continuavam carnudos e sensuais, lábios sinceros que me recordavam muitos e muitos beijos…

É certo que havia algumas marcas do tempo.

Rugas discretas nos cantos dos olhos, alguns vincos na testa e as pálpebras um pouco mais pesadas denunciavam os momentos ruins que lhe tinham acontecido.

Momentos em que ela talvez não tivesse tido um ombro para encostar a fronte e derramar algumas lágrimas aliviadoras enquanto ouvia palavras macias de reconforto.

Momentos que eu certamente teria gostado de viver com ela, de ter estado presente…

Não.

Eu jamais poderia esquecê-la…

— Sente-se — convidei — Tome um drinque comigo… Ficarei feliz relembrando os velhos tempos.

Ela sorriu, hesitou por um breve instante e, com um gesto que quase me pareceu ser de renúncia, aceitou.

— Pode ser uma boa idéia — disse — Talvez assim você refresque um pouco a sua memória…

E, antes que eu pudesse protestar, antes que eu tivesse oportunidade de lhe dizer que não seria preciso nenhuma espécie de manobra para fazer ressuscitar dentro de mim aqueles sentimentos que há tanto tempo estavam dormentes, ela completou:

— Vamos ver se você lembra mesmo… Quero tomar o meu drinque de sempre.

Sorri, vitorioso.

Chamei o garçom e pedi que trouxesse mais um uísque para mim e uma Margarita para ela.

Notei um lampejo de satisfação em seu olhar e, vendo que ela apanhava um cigarro, apressei-me em acendê-lo.

Como antes, ela o pôs no canto da boca, tragou uma baforada generosa e olhou para mim.

Sim. Ela ainda era muito bonita…

A juventude passara, aquele frescor dos vinte anos desaparecera e naquele rosto que outrora contava, ainda que em silêncio, todos os sonhos e todo o anseio pela vida, havia uma maturidade que, ao mesmo tempo que me surpreendia, também me deixava triste, consciente que ficava de que, se ela mudara, o mesmo teria acontecido comigo, também para mim, o tempo teria sido inexorável e teria deixado suas marcas.

Talvez, até mesmo mais fundas, mais pronunciadas…

Ela, por acaso, não manifestara uma certa dúvida ao se aproximar? Não perguntara, insegura de suas palavras, de sua memória, se eu era o José?

O José, aquele mesmo José que quase um quarto de século atrás, a tivera em seus braços, a beijara sem se preocupar com as lágrimas, em um adeus?

Aquele mesmo José que a amara, que lhe jurara fidelidade, que dissera coisas, que prometera tudo e, no fim…

Tinha sido há muitos anos…

Um quarto de século, talvez.

x.x.x

Era um fim de tarde, de uma bela tarde de primavera de um ano que não me lembro, já perdido no vazio do tempo, e ela vinha caminhando pela calçada naquela cidade de interior onde eu tinha ido parar nem sei por qual razão ou motivo.

Morena, os cabelos muito lisos e brilhantes, caíam-lhe sobre os ombros, trazendo-me à memória a melodia de Índia.

Passou por mim, deu-me tempo apenas de ver que me lançava um olhar muito rápido, arisco, fugidio.

Porém, foi tempo suficiente para me fazer sonhar.

À noite, durante o footing — sim, o final da década de 60, ainda era o tempo do footing na maioria das cidades de interior: as moças caminhavam pela praça da Matriz no sentido horário e os rapazes no sentido contrário; quando a empatia surgia, um sorriso numa primeira volta, uma piscadela na segunda, um breve cumprimento na terceira e, na quarta volta, já era permitido interromper a marcha por alguns instantes e trocar algumas palavras, normalmente apenas para marcar um encontro no dia seguinte — vi-a outra vez.

Estava linda, metida num vestido decotado que lhe realçava as formas e a feminilidade.

Sorrimo-nos, piscamo-nos, cumprimentamo-nos e…

— Gostaria de me encontrar com você amanhã…

— Saio do colégio às cinco. Hoje, quando o vi, eu estava indo para minha casa.

— Então às cinco.

— Às cinco.

Até foi muito, para uma primeira vez.

No dia seguinte, pontualmente às cinco horas, eu lá estava, à porta do imponente Ginásio Monteiro Lobato, à sua espera.

Ela apareceu, sorriu, veio para perto de mim e começamos a caminhar em direção ao Largo da Estação.

Falamos aquelas banalidades que tão bem caracterizam um encontro desse tipo, ela me contou que estava no terceiro ano da Escola Normal, em pouco mais de dois meses estaria formada e, no ano seguinte, já começaria a lecionar.

— E você? O que faz?

Disse-lhe que já estava na Faculdade, verdade que ainda no começo, e que faltava muito até poder começar a trabalhar e a conquistar minha independência.

— Podemos marcar um encontro para a noite?

— Na praça?

— Não. Em outro lugar… Gostaria de poder estar sozinho com você.

Ela ficou em silêncio pior alguns momentos, olhou-me de soslaio com um sorriso a lhe iluminar o rosto.

Por fim, disse:

— Está certo. Também não gosto de muita gente por perto.

— Onde, então?

Mais uma vez, ela demorou a responder.

Notei um certo rubor em suas faces, quando ela me disse:

— Hoje à noite irei a uma festinha de aniversário. Na rua Duque, sabe onde fica? A festa será numa casa grande, com o portão de grade…

— Estarei lá.

— Às nove, está bem? Preciso ficar um pouco na festa, pelo menos…

Sorri.

Sua frase, deixando bem clara uma segunda ou até terceira intenção, fez com que meu coração batesse mais rápido, cheio de esperanças.

Que não se mostraram vãs…

Às nove horas, ela surgiu no portão, olhando para os lados, ressabiada.

Pisquei os faróis do carro e abri a porta para que ela entrasse.

— Mas… de carro?

— O que é que tem?

Ela deu de ombros e partimos em direção à barranca do rio.

Não havia muito o que conversar mas, em muito pouco tempo descobrimos que havia muito o que fazer…

Ela era quente, carinhosa, voluptuosa…

Seus seios, túrgidos e frementes, tinham o exato tamanho de minhas mãos e seus lábios, ansiosos por beijos, cheios de uma sensualidade quase animal, esmagaram-se incontáveis vezes contra os meus.

Não foi preciso insistir muito para que ela me permitisse palpar suas coxas e, daí à mão subir um pouco mais, foi um passo curtíssimo.

Não posso garantir que tenha sido recíproco, mas percebi o que acontecera alguns minutos depois quando, ainda ofegante, ela me disse:

— Serei sua para sempre…

x.x.x

Os anos passaram, o tempo deixara marcas, cicatrizes terríveis, lembranças amargas que se sobrepuseram às doces e que as apagaram…

— Você não mudou — falou ela, sem que eu conseguisse perceber se havia ou não algum sarcasmo em sua frase.

Sorriu e arrematou, cantarolando a velha música:

— “Você está bem, disposto…”

— “Também sofri…”— respondi no mesmo tom.

— “Mas não se vê no rosto…”— continuou ela.

Não era verdade.

Podia constatar isso todos os dias pela manhã, sem que ninguém precisasse dizer coisa nenhuma. Bastava-me ver a imagem que o espelho devolvia, não tinha necessidade de mais do que ver os cabelos brancos que surgiam, cada vez mais numerosos em minhas têmporas, as rugas que faziam meu rosto mais amargo, mais triste, menos esperançoso…

— Também me separei — murmurou.

Eu não queria mas senti uma pontada no coração.

Esperava que ela me dissesse que sua vida estava indo bem, que estava feliz e realizada, que se encontrara, afinal, a despeito de tudo.

Mas não…

Ela também sofrera com uma ruptura, ela também sofrera por causa de uma separação.

E depois…

O retorno à eterna busca…

Teria tido sorte, por fim? Teria encontrado a outra metade, o complemento certo para a felicidade?

Ou teria acontecido com ela o mesmo que me acontecera?

Talvez…

Se eu não tivesse sido tão medroso e egoísta vinte e poucos anos atrás…

x.x.x

Voltamos a nos encontrar no dia seguinte, no outro e no outro.

Depois, tive de ir embora, precisei voltar para a Capital.

— Você vai me esquecer…

— De jeito nenhum! Como poderia…?

— Jure que vai voltar…

— Juro!

Não tive tempo de cumprir o juramento.

Dez dias depois, plena quinta-feira, acordei com a campainha da porta tocando.

Era ela.

— Você!

— Vim preparar seu café da manhã…

Preparou também o almoço, o jantar, o desjejum do dia seguinte e todas as refeições de muitos outros dias, daí para a frente.
— Moro sozinho… Fique comigo, não quero que vá embora.

E ela ficou.

De dia, depois de cuidar de tudo em casa, ia dar aulas num colégio ali perto.

E à noite…

Bem…

À noite ela era integralmente minha, entregava-se doidamente às minhas fantasias e aos meus caprichos, realizava-me, satisfazia-me.

Até que um dia, cerca de três meses depois, alguns colegas decidiram passar o fim-de-semana em Ubatuba.

— O Zé? Não! O Zé está casado…! Nem vamos convidá-lo!

Ouvi…

Ouvi e comecei a pensar, passei de repente a perceber que era verdade, eu estava fazendo uma vida de homem casado… sem o ser!

— Ainda sou muito novo… Não posso me amarrar desse jeito!

Nem voltei para casa. Da Faculdade, segui com os colegas para Ubatuba.

Voltando, na segunda-feira à noitinha, fiz vista grossa para as lágrimas que ela derramava, fiz careta ao ouvir suas queixas e ri quando ela disse:

— Você poderia ter pelo menos um pouco de consideração! Nem me avisou!

Olhei para ela e perguntei:

— E por que deveria avisá-la? Será que também teria de pedir autorização?

Ela não respondeu.

No dia seguinte, quando voltei da Faculdade, ela não estava mais.

Depois disso, encontrei-a ainda duas vezes: uma, quando ela apareceu para me devolver as chaves do apartamento e deixar seu endereço e outra, a última, quando fui à sua casa, um bonito apartamento em Perdizes, para lhe levar umas cartas que tinham chegado em meu endereço.

Nada falamos, praticamente.

Apenas aceitei um café e, ao me despedir, desejei-lhe sorte.

— O mesmo, para você — murmurou ela, quando eu já ia entrando no elevador.

x.x.x

— Eu o procurei — falou ela, em voz baixa — Deus sabe como o procurei!

— Estava fora — repliquei quase num sussurro — Nos Estados Unidos… Não poderia ter adivinhado.

— Precisei de um amigo — prosseguiu ela, como se não me tivesse escutado — Fiquei desesperada, à beira de um colapso nervoso.

Seus olhos me recriminaram enquanto ela dizia:

— Se o tivesse encontrado, acho que as coisas teriam sido mais fáceis…

Já eu não tinha tanta certeza assim.

Pelo que ela estava me contando, sua separação coincidira com a minha e, naquela ocasião eu não tivera forças nem para mim mesmo, como poderia tê-la apoiado? Como poderia ter servido de esteio para quem quer que fosse?

Olhei suas mãos.

Continuavam finas, bonitas, delicadas…

Claro que a pele já estava um pouco mais frouxa, já se notavam aquelas manchas traiçoeiras que os médicos chamam pomposamente de “manchas hipercrômicas” e que o leigo, muito mais sábio, classifica de “manchas da velhice”…

Mas eram as mesmas mãos…

As mãos que deslizaram pelo teclado do piano em minha casa e que, muitas e muitas vezes, me acariciaram os cabelos, me exploraram o corpo em carinhos alucinantes, transportando-me para um universo de felicidade inigualável…

Ela terminou seu drinque, fitou-me, olhou em seguida para o relógio e disse:

— Tenho um compromisso importante… Preciso ir embora.

Levantou-se e eu a imitei.

Aproximou-se de mim, beijou-me as faces fazendo-me sentir o mesmo calor de antigamente ao contato com sua pele e falou:

— Vamos nos encontrar amanhã, está bem? Acho que será bom para nós dois revivermos aqueles instantes tão bons que já tivemos.

Disso eu tinha certeza.

— Ainda moro no mesmo lugar… Lembra onde é? Tem o telefone?

Não esperou que eu respondesse.

Era mais do que evidente que eu tinha a obrigação de ter o seu número de telefone, seu endereço, uma maneira qualquer de encontrá-la.

Beijou-me mais uma vez, desta feita sobre meus lábios e se afastou.

Eu fiquei ali, de pé, ao lado daquela mesa de bar, vendo-a passar por entre as mesas e ganhar a rua.

Ainda sentia o gosto de seu beijo quando sentei novamente e pedi ao garçom que me trouxesse um uísque duplo.

Era o adeus…

O adeus definitivo, o fim de tudo.

Não haveria encontro algum no dia seguinte e, era lógico, nunca mais nos veríamos.

O garçom trouxe a bebida e, enquanto eu entornava o seu conteúdo garganta abaixo desejando que fosse um copo do mais potente raticida, pensei:

— Meu Deus… Porque a pusestes em meu caminho logo hoje? E como é que eu vou fazer para lembrar seu endereço se nem sequer consigo me lembrar de seu nome?!

Olhei para o fundo do copo já vazio.

Não…

A resposta a essa terrível e avassaladora pergunta não estava ali.

Chamei novamente o garçom.

Talvez no fundo de um outro copo… Talvez ainda não estivesse tudo perdido.

Afinal, eu me lembrara de tantas coisas relacionadas a ela… Quem sabe, com uma ajudazinha…

Quem poderia garantir que ela não voltaria?

E quem poderia dizer que seu nome não me viria à mente junto com os vapores do uísque?

— Mais alguma coisa, Doutor José? — indagou, solícito, o garçom.

Sim, eu queria mais alguma coisa…

Queria que ela voltasse, queria vê-la mais uma vez. Queria ter tido pelo menos mais uma chance…
Mas era impossível…

Teria de me conformar, precisaria me convencer de que, simplesmente, o tempo passara e enterrara o passado, apagando-o, transformando-o apenas numa sombra enfumaçada onde as recordações se misturavam sem qualquer ligação entre si…

— Mais um duplo — pedi — Infelizmente, é só isto que eu posso pedir, já que você jamais conseguiria trazer para mim uma dose, ainda que pequena, de felicidade…

Escritor recordista no Guinness Book of Records com mais de mil livros publicados. Mais em www.ryoki.com.br

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